De Leões Domados e Alimárias Esquivadas
As armas e os barões assinalados
Que do erro e da lerdeza vão se esquivando,
Por mares de e-mails nunca dantes navegados,
Passaram muito além da hora do ponto batendo;
E entre gente remota edificaram
O novo relatório que tanto lhes demandaram.
Cante eu agora o peito ilustre e forte,
A quem o leão diário não espanta,
Que enfrenta o rugido e vence a sorte,
Mas treme ante o tropel de tanta anta!
Ó musas do comitê, dai-me um engenho
Que iguale o tamanho do ranco que eu tenho.
Não mais da Lívia ou de Vênus se cante,
Nem de heróis que a espada ao céu levanta,
Pois maior bravura mostra o navegante
Que desvia, sutil, da dita anta!
A anta que obstrui o fluxo do processo,
E atrasa a homologação e o progresso.
Vede o guerreiro na baia sentado,
Cercado de prazos, nobres e urgentes,
O felino da meta já foi domado,
Por suas mãos ágeis e competentes.
“O leão está morto!”, brada o cordeiro,
Mas eis que surge o perigo verdadeiro:
Um e-mail em cópia para a diretoria,
Um alinhamento sem nexo ou razão,
Uma planilha cheia de heresia,
Que desfaz o esforço de toda a nação!
“Ajuste o escopo”, diz o bicho ruidoso,
Tornando o caminho mais tortuoso.
Ó néscio volume de gado sem guia,
Que cruza o progresso com passo manco,
Não vê que a entrega vence no dia,
E o prazo estoura dentro da empresa?
Desvia o herói com destreza tamanha,
Que a própria resiliência se acanha!
Cesse tudo o que a antiga musa canta,
Que outro valor mais alto se afigura:
Vencer o leão que a jornada levanta,
E esquivar-se da anta com compostura!
