Relato de uma pessoa deficiente visual utilizando o Slackware Linux

O Software Livre é realmente incrível!!

Na Lista de discussão do GUS-BR, a usuária, Aiyumi Moriya, fez um relato da sua experiência na instalação e utilização do Linux, mais precisamente o Slackware na versão 12.2.

Abaixo, segue o conteúdo completo do relato enviado à lista.

Introdução

Sou uma deficiente visual que teve a doida ideia de migrar de Rwindows
para Linux (Slackware). Estou escrevendo para dar meu depoimento sobre
a experiência que tive com a instalação e a configuração do sistema.
Uso computador desde 1996. Fui usuária de Rwindows até fevereiro deste
ano (2009), quando mudei para Linux de uma vez por todas. Na verdade,
fazia tempo que fiquei curiosa e quis experimentar o Linux, mas nunca
tive coragem. Há cerca de dois anos, precisei fazer um trabalho sobre
Software Livre na faculdade, desde então passei a acompanhar mais os
acontecimentos nas comunidades. Os dias passavam e o Rwindows foi
deixando de atender  as minhas necessidades e ia dando mais vontade de
migrar, mas ainda não sabia como.

Primeira Tentativa, Primeiras Impressões

Certo dia, fiquei sabendo que existia um leitor de telas para Linux
chamado Orca
http://live.gnome.org/Orca
e que ele vinha por padrão no Ubuntu. Resolvi testar. Instalei no meu
laptop e, que beleza, funciona direitinho! Ou pelo menos foi o que eu
achei no começo. Havia vários problemas que atrapalhavam, um dos mais
irritantes era uma medida de segurança do Gnome que fazia com que o
Orca não falasse na hora de realizar tarefas administrativas. Fiz o
que é indicado em
http://live.gnome.org/Orca/SysAdmin
não adiantou muito, às vezes falava, na maioria das outras não. Também
acontecia muito de parar de falar, ou travar tudo de repente. O
problema foi ficando cada vez mais frequente, até que o meu Ubuntu não
funcionou mais. Li alguns artigos que me levaram à conclusão de que a
acessibilidade no pinguim ainda estava fraca. Fiquei pensando que os
problemas de travamento que tive eram “culpa” do Orca e resolvi
esperar algum tempo até que ficasse mais maduro.

Decepções

Alguns meses se passaram. Ainda não queria desistir do Linux. Resolvi
“ver” a quantas andava e baixei o Ubuntu 8.10. Infelizmente o áudio
não funcionou no meu PC, que estava com uma placa de áudio Realtek
daquelas consideradas problemáticas para usuários Linux. Testei no
laptop e o leitor de telas finalmente falou: “Welcome to
Orca.” … … ….. E mais nada. Procurei em fóruns, no site oficial
e na lista de discussão do Orca pela resposta do porquê de não ter
funcionado no Ubuntu 8.10. Não encontrei nada parecido com o meu caso.
Li várias coisas durante essa busca e cheguei a uma conclusão: não
gostei do Ubuntu.
– Primeiro, porque o Gnome é muito pesado e vem com um mundo de coisas
desnecessárias, que se eu não quisesse, teria de remover uma a uma,
ainda correndo o risco do APT ou do Synaptic removerem junto coisas
que não deveriam.
– Segundo, porque tem aquela falha que deixa o leitor de telas mudo
como Root.
– Terceiro, porque passou a usar o PulseAudio como padrão em vez do
ALSA e várias pessoas postaram na lista do Orca que isso diminui a
performance na acessibilidade, com umas soluções complicadas para
desinstalar o Pulse e ficar sem som enquanto tenta instalar o ALSA.
Li que o Orca funcionava com aplicativos em GTK2, não necessariamente
só com o Gnome. O XFCE (que é mais leve que o Gnome) também é em GTK2,
então tentei o Xubuntu (certo, também é Ubuntu, mas pelo menos não é o
Gnome). Coloquei o Orca nele e também não deu certo, não falou nada!
“Não, não é possível, tem de haver outra solução… Outra distro…”,
eu pensava enquanto vasculhava a Internet em busca de respostas.
Encontrei perguntas do tipo:
“Existe alguma distro acessível por padrão?”
“Tenho um amigo deficiente visual e ele quer usar o Linux. Que distro
vocês me indicam?”
e as respostas eram:
“Ubuntu”
“Ubuntu”
“Ubuntu”
“Ubuntu”
“Ubuntu”, ou alguma outra baseada nele…..
“Não! Eu já disse que não quero mais Ubuntu! Ah, chega! Vou tentar
outra coisa…”, resolvi testar o Oralux, uma tentativa de
distribuição acessível já abandonada. Não funcionou no laptop, muito
menos no PC principal por causa da placa Realtek problemática, apenas
suportada a partir do Alsa 1.0.17 (sei lá qual era a versão
ultrapassada do Alsa do Oralux…). Tentei outra distro (que não
lembro qual era), disponível apenas em Inglês, também não funcionou
pelo mesmo motivo da anterior.

A Última Esperança

Mais perguntas na Internet, mas apenas relacionadas a Linux, sem
considerar acessibilidade:
“Quero estudar Linux, que distro vocês recomendam?”
Resposta:
“Use Slackware. Distro simples, estável, bem testada, bastante
respeitada, uma das poucas que ainda não perdeu suas raízes, e faz
aprender na marra, porque não vem quase nada configurado e você é
obrigado a se virar.”
“Ok, vai ser essa.”, decidi.
Relatos na net diziam “É muito difícil!”, mas será que era tanto
assim? Li vários artigos sobre a instalação e configuração, incluindo:
http://www.gdhpress.com.br/blog/instalando-o-slackware/
http://www.gdhpress.com.br/blog/slackware-sobrevivendo-ao-primeiro-boot/
http://www.gdhpress.com.br/blog/configurando-o-x/
E até o livro oficial, o SlackBook (“Slackware Linux Essentials”),
entrou na dança:
http://slackbookptbr.sourceforge.net/livro/slackbook.html
A cada artigo que eu lia, ficava cada vez mais certa de que era o que
eu queria. E mais, ele é acessível! Ou melhor, quase. Descobri que o
Slackware já vem com um leitor de telas, o Speakup
http://www.linux-speakup.org/
e que era possível realizar a instalação falada por meio dele. O
problema é que ele só suporta sintetizadores de voz via hardware por
padrão e eu não tenho esses equipamentos. Também há suporte a síntese
via software através do Speech-Dispatcher
http://www.freebsoft.org/speechd
e do Speechd-Up
http://www.freebsoft.org/speechd-up
, mas só depois de instalados o Slackware e os softwares de fala.
Então, de qualquer jeito eu precisaria de ajuda de alguém que
enxergasse.
Mesmo com o contra acima, resolvi instalar o Slackware. Algo me dizia
que seria difícil, enquanto outro algo dizia que não seria impossível.

Instalando e Configurando

Destruí todos os meus experimentos falhos do meu laptop e inseri o DVD
do Slackware 12.2. Então, fiz minha mãe, que não entende nada de linux
e quase nada de Inglês, ler o instalador inteiro para mim. Umas três
horas depois, o Slack estava no meu laptop, mudo, mas funcionando.
Seguindo os passos de um dos artigos já mencionados, ainda com ajuda
não técnica, configurei o áudio com o “alsaconf”, usei o “alsamixer”
para aumentar o volume, seguido de “alsactl store” para salvar. Para
fazer o negócio falar, usei o outro computador (que ainda estava com
Rwindows) para entrar na Internet e baixar os seguintes softwares:
– Espeak (sintetizador de voz com suporte a vários idiomas, inclusive
o Português):
http://espeak.sourceforge.net/
– Speech-dispatcher (servidor de fala):
http://www.freebsoft.org/speechd
– YASR (leitor de telas para o console):
http://yasr.sourceforge.net/
Transportei-os para o laptop com a ajuda de um pendrive e instalei
cada um com os três comandos básicos “./configure”, “make” e “make
install”. Assim, finalmente consegui usar o terminal e me virar sem
auxílio visual.

Aperfeiçoando

Bastou viver um pouco no mundo Slackware para descobrir que usar os
três comandos básicos não é a forma mais prática para instalar (e
depois desinstalar) aplicativos. Fiquei sabendo dos SlackBuilds,
scripts para compilar programas e gerar pacotes para o Slack,
facilmente gerenciados pelas ferramentas da distro. Peguei um
SlackBuild básico, o da biblioteca Glib, mais alguns do repositório
http://repository.slacky.eu/
e usei como base para compilar as últimas versões do Orca e suas
dependências.
Depois de muitos erros e acertos, consegui instalar o Orca. Coloquei-o
para falar e ele disse:
“Welcome to Orca.” … … ….. E mais nada.
“Ué? Por quê? Será que é porque não é o Gnome? Não, não pode ser, fugi
tanto dele para acabar nisso… Será mesmo que não tem escapatória e
vou ter de instalá-lo?”
A resposta logo veio. Encontrei outra tentativa de distro acessível, a
nova versão do Knoppix com um conjunto de softwares chamado ADRIANE
(Audio Desktop Reference Implementation and Networking Environment)
http://www.knopper.net/knoppix-adriane/index-en.html
Baixei e testei. A versão do ALSA era meio antiga e não funcionou no
PC por causa da placa de áudio problemática, mas no laptop foi que uma
beleza. A distro apresentava uma interface com menus em modo texto,
usando o Dialog e um leitor de telas para console, inclusive havia uma
opção de usar a interface gráfica, com o Orca como leitor de telas,
Firefox, OpenOffice e o LXDE
(http://www.lxde.org)
como desktop. Funcionou às mil maravilhas e sem Gnome!
Encontrei um artigo interessante sobre o assunto:
http://www.linux-magazine.com.br/images/uploads/pdf_aberto/LM_51_50_5…
por meio dele e com base em alguns shell scripts do ADRIANE, soube que
para integrar o Orca com outras ferramentas GTK que não o Gnome, era
preciso setar algumas variáveis na inicialização:
export SAL_USE_VCLPLUGIN=”gtk”

export GTK_MODULES=”gail:atk-bridge”

Mesmo assim não funcionou, nada mais era dito além de “Welcome to
Orca.”. Outra vez, procurei pelas listas de discussão e pelos fóruns,
sem encontrar nenhum caso doido parecido com o meu. Até que encontrei
o guia de como criar aplicativos acessíveis em GTK:
http://live.gnome.org/GAP/AtkGuide/Gtk
onde dizia para setar a variável “GNOME_ACCESSIBILITY” para “1”.
Apesar do guia informar que colocar essa instrução no script de
inicialização do usuário estava depreciado (deprecated), foi só fazer
isso que o Orca abriu a matraca de vez!
Para iniciar uma sessão gráfica falante, era “só” colocar o seguinte
no final do arquivo .xinitrc:
# —————————————————-
# Inicia o registro do AT-SPI
exec “/usr/libexec/at-spi-registryd”&

# Coloca em modo de acessibilidade
gconftool-2 -s –type=bool /desktop/gnome/interface/accessibility true

# “Engana” o programa, fingindo estar usando o GDM
export LOGNAME=”GDM”

# Integração com aplicativos em GTK
export SAL_USE_VCLPLUGIN=”gtk”

export GTK_MODULES=”gail:atk-bridge”

export GNOME_ACCESSIBILITY=1

# Inicia o gerenciador de janelas

sleep 0.5

exec /usr/bin/startlxde& # Para o caso do LXDE

# Inicia o leitor de telas Orca
# (precisa ser a última coisa a iniciar)

orca -n

# —————————————————-

Migrando

Depois de fazer backup de todos meus arquivos importantes, sem dó,
destruí a partição do Rwindows. novamente, com ajuda não técnica,
dessa vez escolhendo o Kernel com o Speakup, repeti o processo de
instalação e configuração do Slackware, agora no PC. Usei os
pacotes .tgz que construí nos meus experimentos no laptop para
instalar os aplicativos de acessibilidade. Mais alguns erros e acertos
depois, já tinha o computador principal com Slackware Linux e, melhor
ainda, falando!

Como Estão as Coisas Hoje

Ainda não consegui fazer o Speakup falar via software , as instruções
disponíveis estão desatualizadas, vários nomes e comandos mudaram e já
não sei mais qual é qual.
Fora o Speakup(que não está funcionando) e o Orca, estou com mais dois
leitores de tela (console) instalados para testes e para emergências:
O YASR e o SBL (SUSE Blinux Screen Reader)
http://en.opensuse.org/SUSE_Blinux
que tem muito mais opções e configurabilidade do que o YASR.
Uso os aplicativos “comuns” para as tarefas do dia-a-dia (Firefox para
navegar na Internet, MPlayer para reproduzir vídeo e música, BROffice
para abrir os documentos com formatos proprietários etc.).
Quando preciso rodar algum aplicativo do outro sistema operacional
(geralmente, coisas relacionadas a games), uso o Wine, brigo com ele
reclamando das DLLs faltando daqui e dali, mas com um pouco de
paciência, funciona. Infelizmente ele não consegue rodar o NVDA
(leitor de telas aberto para Rwindows
http://www.nvda-project.org
), mas como uso só de vez em quando, recorro à ajuda não técnica.

Conclusão

Apesar de ter apanhado bastante dos aplicativos de acessibilidade,
agora estou usando o Linux e não me arrependo. O Slackware é uma ótima
distribuição, os arquivos de configuração são bem organizados, (sei
que muitos não concordam com isso mas na minha opinião) tem métodos
simples e eficazes de gerenciar pacotes e vem por padrão com muitos
programas úteis, tanto para usuários comuns quanto para
desenvolvedores. Estou bastante satisfeita com ele.

É por esses e outros motivos que existe um orgulho no auxílio do desenvolvimento do Software Livre, seja o auxílio no desenvolvimento, apoio financeiro, apoio nos testes, apoio na documentação, etc.

6 ideias sobre “Relato de uma pessoa deficiente visual utilizando o Slackware Linux

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